FUNFUN

Funfun significa branco em iorubá: princípio de clareza, pureza, calma, o fundo que tudo reflete. É a raiz do grande Òrìṣà Funfun, do qual Òbàtálá, Òrìṣà nlá, Òṣàlúfán e Òṣogìyán são aspectos de uma mesma divindade.

Esta série nasce desse princípio: a criação como gesto de clareza, o material como Orí em formação, o silêncio como território sagrado.

OBÀTÁLÁ

Cultuamos Òbàtálá para termos paz de espírito.

Cultuamos Òbàtálá para aprender a dominar nossas emoções, conter a ansiedade e alcançar o equilíbrio energético e espiritual. Esse òrìṣà, símbolo da pureza e da serenidade, nos ensina que a verdadeira limpeza não está na assepsia do corpo, mas na retidão do caráter. Ser limpo, para Òbàtálá, é ser puro de consciência.

Ìwà Pẹ̀lẹ́

Um filho de Òbàtálá não pode tramar contra o outro, não pode mentir, inventar histórias nem distorcê-las. Não pode agir com falsidade.

Na tradição iorubá, Òrìṣà Òbàtálá é aquele que nos julga quando deixamos o àiyé. Quando chegamos à Terra, viemos envolvidos pelo àlà, o pano branco que protege e revela nossa essência espiritual. No dia da morte, apresentamos esse pano a Òbàtálá; se fracassamos, ele estará manchado. Assim, Òbàtálá julga nossas atitudes terrenas pela “sujeira” dos nossos atos e pensamentos.

Essa crença é profunda na cultura iorubá, mas se perdeu em parte do Brasil. Muitos se associam apenas aos nomes fragmentados do mesmo ser (Òṣogìyán, Òṣàlúfán, Òṣàgiyán) como se fossem entidades diferentes. Contudo, Òbàtálá, Òrìṣà-nlá, Òṣàlúfán e Òṣogìyán são todos aspectos da mesma divindade, o grande Òrìṣà Funfun.

Òbàtálá, também chamado Òṣèrèmàgbò, o mágico da criação, foi aquele que moldou o ser humano.

Foi ele quem confeccionou os materiais da existência, o artista que deu forma aos nossos Orí.

Ao virmos à Terra, passamos pela casa de Àjà Àlà, outro nome de Òbàtálá, onde recebemos nosso Orí e, com ele, o destino que nos guiará no àiyé. É também Òbàtálá quem pode corrigir um Orí burúkú (um mau destino), como narram os versos sagrados de Ifá.

Alguns conhecem Òbàtálá como Òṣèrèmàgbò; outros o chamam Òṣàlá, Òrìṣà-nlá, Òṣàgìyán, mas todos esses nomes apontam para o mesmo princípio: o da criação pura.

Ele é o òrìṣà da criatividade e o patrono dos artesãos, de todos os que produzem com as mãos e com o espírito.

Quando a vida se torna densa e não encontramos saídas, é a ele que devemos recorrer. Não é apenas a Èṣù que se pede caminhos; Òbàtálá também oferece soluções, clareando as rotas e serenando os corações.

Os que têm o assentamento de Òbàtálá percebem, às vezes, a presença de aranhas por perto, o animal tecelão que representa sua energia criadora. Não é bom matá-las, pois trazem a vibração da criação e da paciência.

Os filhos de Òbàtálá são inteligentes e sensíveis, mas precisam aprender a humildade. A soberba e a prepotência afastam a força do seu pai. Se os filhos de Òbàtálá sabem abaixar a cabeça e reconhecer os próprios erros, nada lhes faltará. Mas se se tornam arrogantes e não aprendem a perdoar, perdem as bênçãos e as conquistas.

Cultuar Òbàtálá é também aprender a libertar-se dos vícios e dos desajustes emocionais. Ele nos auxilia a abandonar o que nos desequilibra: drogas, álcool, compulsões, ansiedades e comportamentos nocivos. Nos rituais, a oferenda do Ìgbín (caramujo) e o uso do omi ẹ̀rà, a “água que acalma”, ajudam a restaurar o eixo interior, conduzindo o corpo e a mente à tranquilidade.

No culto de Òbàtálá existem os Elégùn (médiuns que entram em transe) e as Àrúgbà, virgens prometidas aos òrìṣàs, que também podem manifestar o òrìṣà em transe. Ainda assim, é importante compreender que o transe não define quem pode ser sacerdote. Na tradição, tanto quem manifesta quanto quem não manifesta o òrìṣà pode se tornar sacerdote, o que determina esse caminho é o destino e o estudo, até que o mais velho conceda o aval.

Òbàtálá não revela o destino, mas conhece profundamente o Orí de cada ser. Como foi ele quem moldou todas as cabeças, pode também corrigir o que se desajusta.

Òbàtálá nos ensina que somos grandes quando sabemos ser pequenos. Se somos humildes, justos e limpos de coração, ele se volta a nosso favor. Não precisamos nos sobrepor a ninguém, pois a arrogância é contrária à sua natureza.

Òbàtálá é o òrìṣà do caráter. Ele nos torna belos, não pela estética, mas pela pureza do espírito. Ensina-nos a nos redimir para nos purificarmos.

No dinamismo da vida, os òrìṣàs têm sede de evolução, e Òbàtálá é aquele que nos mostra que a grandeza nasce da serenidade.