QUANDO TUDO TERRA ERA

(When All the Earth Was)

A série QUANDO TUDO TERRA ERA, iniciada em 2021, nasce de uma investigação contínua sobre divindades, práticas espirituais e experiências humanas a partir da matéria primordial: a terra. Argila, mineral, pigmento e corpo aparecem como elementos indissociáveis, convocando um tempo anterior à separação entre o humano, o animal e o sagrado.

No início da série, minhas pesquisas se aprofundam nas cosmologias dos orixás do candomblé Ketu, religião brasileira de matriz africana, não como um sistema fechado de símbolos, mas como um campo vivo de forças, narrativas e presenças. A pintura surge, então, como um espaço de reinvenção simbólica: animais, situações oníricas e gestos corporais são reorganizados para dar forma ao mistério, ao invisível e ao que escapa à linguagem racional.

Mais do que ilustrar mitologias, busco criar imagens que operem como encruzilhadas — entre o visível e o invisível, o espiritual e o material, o sonho e a experiência concreta.


QUANDO TUDO TERRA ERA Texto curatorial de João do Nascimento

Cortesia da foto Laryssa Machada

Certa vez, Olorum pediu a Oxalá que criasse o mundo e os humanos. Oxalá tentou diversos métodos, como formar os humanos a partir do ar ou da madeira, mas todas as tentativas falharam. Até mesmo criar os humanos a partir de pedra e fogo não teve sucesso. Ele tentou usar óleo, água e vinho de palma, mas nada funcionava. Foi então que Nanã ofereceu sua ajuda, dando a Oxalá a lama do fundo de sua lagoa, onde ela vivia. Utilizando essa lama, Oxalá finalmente obteve êxito em criar os humanos. E assim, os seres humanos foram criados a partir da lama de Nanã e ganharam vida.

Em Quando Tudo Terra Era, João do Nascimento nos situa nas espirais do tempo, uma movimentação que permeia passado, presente e futuro. É uma ligação que nos aproxima de ancestrais e parentes; somos um só com a terra e com os animais. No tempo espiralar, dançamos, encontrando um ritmo comum em que o tempo somos nós. Nele, construímos nossas casas, cuidamos, vivemos, nos conhecemos e morremos — para viver novamente.

Kelton Campos Fausto, em sua exposição individual, apresenta um universo povoado por seres que se relacionam diretamente com a terra, criando seus ambientes e tendo o barro como matéria-prima fundamental, edificador de todas as coisas. A série investiga o potencial da materialidade, transitando pelas literalidades e propondo um rompimento da condição de boa parte das espécies cooptadas pela função. Ao mesmo tempo, recupera a traumática experiência civilizatória europeia, projetando “outros modos de habitar a terra”, título de uma de suas pinturas.

Inspirada pela religião brasileira de matriz africana, a artista incorpora referências à simbologia do candomblé, utilizando-a como ferramenta de comunicação espiritual. Quando presentes nas pinturas, esses elementos criam janelas para o possível-tempo, permitindo inclinar-se a outras tecnologias e construindo universos que exploram os diferentes pigmentos do barro, erigidos por um povo que se comunica ativamente com seus ancestrais.

Nas obras de Kelton, formas como círculos incompletos, retas e setas paralelas em ascensão ganham um sentido potente dentro da narrativa, relacionando-se à comunicação espiritual direta, visível e material. Tudo é conectado; tudo somos nós. Pensar na vida apenas como uso é não pensá-la. Em seu trabalho, a artista mostra a importância de tratar a matéria como matriz e como entidade ancestral — terra que se transforma e transforma o ser, consciente de que também é terra. Das literalidades à invocação de sentidos primários, Kelton aponta a possibilidade de que a relação com o material seja uma resposta a um movimento mais orgânico no exercício de ser humano e povo. É necessário se relacionar com a terra para conhecer o outro.

Vista da exposição QUANDO TUDO TERRA ERA 2023


Saruê (Série QUANDO TUDO TERRA ERA) |
Técnica mista sobre tela | 1,50 x 1,50 cm | 2022 |

Esta obra foi produzida no sul da Bahia, em 2022, período em que vivi em um pequeno vilarejo, em contato direto com a floresta, o rio, o mar, os animais e os ciclos naturais. Essa experiência rompeu profundamente com minha vida anterior em São Paulo, cidade onde nasci e cresci. O tempo, o silêncio e a convivência cotidiana com outras espécies transformaram minha percepção de mundo e, consequentemente, minha prática artística.

Saruê (Didelphis aurita) nasce de um acontecimento real que, posteriormente, se desdobrou em sonho. Naquele momento, eu havia decidido criar galinhas. Comprei três pintinhos e passei a cuidar deles dentro do ateliê, alimentando-os e protegendo-os enquanto ainda eram pequenos.
Com o crescimento rápido, começaram a ocupar outros espaços da casa. Atravessavam limites, deixavam rastros, impondo sua presença. Decidi, então, construir um galinheiro no quintal.

Na mesma noite, por volta das três da manhã, acordei com um barulho. Corri até o quintal e encontrei um saruê dentro do galinheiro. Ele havia comido todas as galinhas. Quando nossos olhares se cruzaram, ele não fugiu — apenas me encarou e continuou a se alimentar. Voltei para casa profundamente abalada e adormeci.

No sonho que se seguiu, o saruê apareceu novamente, agora como uma divindade da floresta. Ele me disse apenas uma frase:

“Assim como você, eu também preciso me alimentar.”

Ao acordar, fui imediatamente pintar esta obra.

Saruê fala sobre hierarquias entre espécies e sobre a ilusão humana de centralidade. A obra propõe uma reflexão sobre controle, posse e convivência, questionando a ideia de que o ser humano ocupa o topo das relações de vida na Terra. Somos parte de um ecossistema complexo, em constante troca com outras formas de existência — animais, vegetais, minerais, fúngicas.

A pintura se constrói como um gesto de escuta e de reposicionamento: reconhecer que viver implica coexistir, dividir e cuidar. Estar alinhado com a experiência humana na Terra não significa dominar, mas compreender os limites do nosso lugar e a interdependência que nos sustenta.


O barro é um elemento fundamental da terra, representando a criação e a transformação. Ele se conecta à alquimia e ao território: nossa interação com o ambiente molda e é moldada por essa relação ancestral.

Somos filhos da floresta, entrelaçados em sua teia de vida. O pulsar ancestral ecoa em nossas veias, em nossa essência. Somos descendentes de uma sinfonia invisível, de um diálogo silencioso. Olhar para outras formas de vida é olhar para nós mesmos. Somos parte de um todo vasto e diverso: animais, vegetais, minerais — todos carregamos o mesmo elo invisível.

Nossos ancestrais ecoam em nossas células, em nosso DNA, uma história que transcende o tempo e o espaço, uma herança compartilhada, entrelaçada em nosso ser. Ao reconhecer essa conexão profunda, nos abrimos para o diálogo com o universo e aprendemos a ouvir as vozes antigas que ecoam em cada folha, pedra e velha.

Nessa sincronização com o todo, encontramos a essência, a harmonia que reside em cada respiração, no assegurar do existir. Mergulhamos na dança eterna da existência junto com os xipocos, através desse diálogo invisível.

Quilombo Itamatatiua, Alcântara, MA, 2021

Me recordo de Leidi, uma preta velha ceramista, uma amiga querida que conheci na Bahia, cantarolando nas manhãs:

“Eu sou brilho do sol
Sou brilho da lua
Dou brilho as estrelas
Porque todas me acompanham
Eu sou brilho do mar
Eu vivo no vento
Eu brilho na floresta
Porque ela me pertence”
(Padrinho Sebastião)

Rios e Meandros: O ritmo incessante da vida

O ritmo incessante da vida se revela nos rios e em seus meandros, símbolos do fluxo contínuo da existência. Nessa metáfora fluida, refletimos sobre o movimento constante das experiências e sobre a importância de fluir e nos adaptar às mudanças ao longo de nossas jornadas. O rio que corre nunca é o mesmo, pois está em permanente transformação — assim como o próprio assegurar do existir. O rio nunca é o mesmo porque nós também não somos. A relação dos humanos com o território é um grande marcador dessas transformações, um campo fértil para pensar as mudanças que atravessam corpos, paisagens e tempos.

A temporalidade se manifesta de forma não linear: passado e futuro coexistem em simultaneidade. Retornar ao passado não significa estar preso a ele, mas reconhecê-lo como parte de um tempo espiralado. As narrativas do Ocidente, em geral, são centrípetas e orientadas pelo individualismo. Mas é a partir dos ensinamentos de outras formas de vida — seja uma criança, seja um rio — que aprendemos a valorizar as mais velhas, as crianças e todos os elos da ancestralidade que sustentam a vida.

Ao analisarmos os territórios e as interações entre as diversas formas de vida que os habitam, percebemos a complexidade e a riqueza dos processos de relação que ali acontecem. Esses territórios são tecidos por uma rede intrincada e invisível de conexões entre seres. Considerar essa complexidade nos leva a questionar a centralidade humana como prática dominante. Reconhecemos que todos os seres e elementos possuem papel e contribuição dentro dessas teias interconectadas, enquanto a centralidade humana, marcada por uma visão antropocêntrica, tende a negligenciar o valor e a importância das outras formas de vida.

O barro se relaciona com o rio, que se relaciona com o mar, que se relaciona com os peixes, que se relacionam com a areia — e assim por diante. Essas relações entrelaçadas constroem um tempo espiralado, uma dança contínua de encontros e desencontros. Nessa espiral, torna-se evidente a interdependência e a interconexão entre todas as partes.

Nesse ritmo incessante, compreendemos que não somos o centro absoluto. Somos parte desse grande fluxo de vida, moldados e influenciados por ele, ao mesmo tempo em que também moldamos e influenciamos os seres e elementos ao nosso redor. É uma dança em que nunca dançamos sozinhos. Ao reconhecer essa complexa teia de relações e o tempo espiralado em que estamos imersos, podemos transcender a centralidade humana e adotar uma perspectiva mais holística, que valoriza e respeita a diversidade das formas de vida.

A partir desse entendimento, torna-se possível buscar práticas mais harmoniosas e conscientes, honrando a interdependência e cultivando uma coexistência equilibrada com todos os seres e elementos que compartilham esse mesmo ritmo incessante.

Coroa Vermelha, BA, 2022

A simultaneidade do tempo e a experiência ocidental

Enquanto a cultura ocidental tende a conceber o tempo de forma linear — passado, presente e futuro — e a ensinar que “tempo é dinheiro”, outras tradições nos convidam a experimentar a simultaneidade desses tempos. Um tempo não linear, que se expande, se contrai, avança e retorna, sem obedecer à lógica reta do progresso.

O tempo não linear nos convida a adotar uma perspectiva mais ampla sobre nossas experiências e performances na vida. Todas as presenças e acontecimentos se entrelaçam, contribuindo para a complexidade de quem somos e de como nos expressamos. Narrativas não-brancas nos ajudam a questionar a noção convencional de temporalidade, muitas vezes limitada a calendários, relógios e demandas de produtividade.

Ao valorizar essas experiências, abrimos espaço para múltiplas formas de existir, de se relacionar com o tempo e de conceber a temporalidade. Saberes ancestrais, ciclos naturais e conexões com o sagrado revelam um profundo senso de interdependência entre comunidade, território e meio ambiente. Essas histórias nos convidam a uma relação mais consciente e respeitosa com o tempo e com todos os seres com os quais compartilhamos o mundo.

Compreender a simultaneidade do tempo nos permite integrar diferentes modos de ser e conhecer, rompendo com a visão linear e centrípeta ocidental, que impõe uma progressão constante em direção a um futuro pré-determinado. O tempo não é apenas uma medida objetiva: é vivo, dinâmico e relacional, moldando nossas jornadas singulares e coletivas, e inspirando a criação de práticas mais harmoniosas e conscientes.

Belmonte, BA, 2022

Memória universal

O tempo não linear provoca uma ruptura no pensamento ocidental, desestabilizando estruturas de poder, subvertendo narrativas hegemônicas e valorizando perspectivas historicamente marginalizadas. Ao reconhecer a importância das narrativas não-brancas, desafiamos a supremacia do tempo linear e os sistemas de opressão que ele sustenta.

Essa ruptura nos convida a repensar nossas concepções de tempo, questionando a ideia de uma temporalidade única e linear. Ao abraçar a simultaneidade e reconhecer múltiplas narrativas, abrimos espaço para uma abordagem mais inclusiva, diversa e conectada às diferentes formas de existência.

Ao confrontar a temporalidade ocidental, exploramos outras formas de nos relacionar com o tempo: fundamentadas em saberes ancestrais, ciclos naturais, conexões com o sagrado e uma visão holística da vida. Esse deslocamento nos permite romper com a linearidade imposta e buscar uma compreensão mais profunda, sensível e empoderadora da nossa relação com o mundo ao nosso redor.

Centrípeta: o movimento

O conceito de movimento centrípeta nos convida a reconhecer e valorizar as forças que nos unem e nos conduzem ao centro. Ele fortalece as conexões humanas, a coletividade e a harmonia com o ambiente. Compreender o movimento centrípeta é perceber como ele sustenta vínculos, sustenta o comum e cria relações interdependentes entre os seres e o território.

Reconhecer a interconexão e a interdependência entre as dimensões temporais nos desafia a repensar nossa relação com o tempo, expandindo nossa percepção e aprofundando a compreensão do mundo.

Simultaneidade: além da visão ocidental do tempo

Em contraposição à visão ocidental linear, a simultaneidade reconhece a interconexão e a coexistência entre passado, presente e futuro. Outras tradições e filosofias que adotam essa perspectiva nos permitem acessar modos mais amplos e sensíveis de experimentar o tempo.

O tempo molda nossa estruturação como indivíduos e coletividades. Ele atravessa nossas organizações sociais, experiências civilizatórias, convicções e afetos. Também se manifesta em todos os domínios da experiência humana e cósmica, tornando-se um campo vivo de memória, relação e transformação.



Belmonte, BA 2022

Bahia / Maranhão 2023

Dagmar, Belmonte, BA 2022